Há espectáculos que terminam quando a cortina se fecha. Há outros que continuam muito depois dos aplausos. “As Três Marias”, levada à cena pela Companhia Enigma Teatro, pertence claramente à segunda categoria.
Por Mwata Santos
Na noite de apresentação, a 12 de Junho, a sala da LAASP (Ex-Liga Africana) não acolheu apenas espectadores. Acolheu memórias, reencontros e uma parte significativa da história recente do teatro angolano. Entre actores, encenadores, dramaturgos, directores de grupos e amantes das artes cénicas, sentia-se no ambiente uma atmosfera rara, como se todos soubessem que estavam prestes a testemunhar algo que ultrapassava a simples apresentação de uma peça. E talvez estivessem certos.
Já no interior da sala, desde os primeiros instantes, uma luz azul predominante envolvia o palco, criando uma atmosfera de mistério e introspecção. Junto ao proscénio, duas estruturas discretas exibiam fileiras de pequenas luzes semelhantes a velas, enquanto uma terceira chama surgia ao fundo, no centro da cena. A composição parecia anunciar uma narrativa onde destino, memória e redenção se entrelaçam. Ao fundo, uma voz ecoava pela sala como uma presença invisível que observava e conduzia o percurso das personagens, preparando o público para uma história onde nada parecia existir apenas à superfície.
E é precisamente aí que reside uma das maiores forças do texto de Armando Rosa. As suas personagens raramente dizem apenas aquilo que dizem. Quando uma delas afirma: “Eu vivo o tormento dos dias obscuros, forjados na imensidão da dor”, não estamos perante uma simples declaração de sofrimento. A escolha da palavra “forjados” sugere alguém moldado pela dor, construído por ela, tal como o ferro se transforma sob o fogo. Noutra passagem, ouvimos: “Sou eu mesma, a Maria Sem Graça. Maria é tua maldição dos dias vazios.” A personagem deixa de ser apenas uma mulher para se transformar numa espécie de destino, numa presença que habilita a memória de quem a encontra. E quando as três proclamam “Nós somos a verdade da mulher”, a frase expande-se para além das personagens e parece convocar séculos de silêncios, cumplicidades, perdas e resistências.
Não surpreende. Armando Rosa pertence à geração que viveu e ajudou a construir algumas das páginas mais intensas da história contemporânea angolana. A sua escrita carrega a densidade de quem conheceu os conflitos, as contradições e os sonhos de um país em permanente construção. Tal como acontece nas dramaturgias simbólicas de autores que fazem da palavra um território de múltiplas leituras, o texto recusa a facilidade e exige do espectador participação activa. Não entrega respostas; oferece pistas.
A encenação de Nelson Cabanga compreendeu essa exigência. A trama, sustentada pelo desempenho de quatro actrizes e um actor, foi enriquecida por recursos sonoros, jogos de luz, fumo cénico e outros efeitos especiais que contribuíram para uma experiência sensorial intensa. Houve momentos em que o silêncio pareceu tão eloquente quanto as palavras e outros em que a composição visual assumiu um papel narrativo quase autónomo.
Nos dias que sucederam ao espectáculo, surgiram vozes defendendo que esta montagem representaria um afastamento significativo da estética que durante décadas ajudou a definir a identidade cénica do Enigma Teatro. Contudo, uma observação mais atenta sugere uma leitura diferente. Quem acompanhou montagens marcantes da companhia, fundada em 1998 a partir da fusão histórica de Os Makotes e Comba Meneck, como “A Raiva”, “A Grande Questão”, “Galáxia”, “Casados e Cansados” ou “Cangalanga”, encontrará na “As Três Marias” muitos elementos familiares: a ocupação rigorosa do espaço, a valorização do corpo e, fundamentalmente, a utilização simbólica do mobiliário. Longe de ser uma ruptura, a manutenção da mesa no centro geométrico do palco reafirma a assinatura visual do Enigma. A desconstrução utilitária surge nos bancos de madeira, que deixam de ser assentos passivos para se tornarem extensões físicas do corpo das actrizes; o acto dramático de “subir ao banco” para demarcar a centralidade do discurso ou impor a força de uma acção, como Maria da Graça executa com precisão, é uma herança directa de dispositivos cénicos já testados em “A Raiva” e “A Grande Questão”, só para citar alguns. Além disso, a presença do manequim sobre a mesa, representando o falecido Zé (que na penumbra inicial mimetiza com assombrosa eficácia uma pessoa real), evoca de imediato a estética de Tadeusz Kantor, ao retirar a função quotidiana do objecto e transformá-lo num simulacro carregado de misticismo e assombro.
Essa abordagem corporal e cenográfica dialoga directamente com as vanguardas teatrais europeias do século XX. O rigor físico do elenco ao interagir com as estruturas de madeira evoca a Biomecânica de Vsevolod Meyerhold (2012), que via o actor como um organizador do espaço através do movimento coordenado. Simultaneamente, o despojamento em torno desse núcleo central remete ao conceito de “Teatro Pobre” de Jerzy Grotowski (1971), onde a renúncia aos excessos decorativos força o mobiliário a metamorfosear-se em signo dinâmico da acção dramática.
Este pendor do Enigma Teatro para uma encenação conceptual e física permite estabelecer paralelos evidentes com outros grandes colectivos do panorama nacional. Se, por um lado, afasta-se do realismo quotidiano e do cariz mais interventivo ou didáctico do Miragens Teatro (frequentemente focado no registo de costumes, mitos e tradições urbanas, como na peça “4:30”), aproxima-se, por outro, da pesquisa estética e literária do Elinga Teatro de José Mena Abrantes. A opção de Nelson Cabanga por uma cenografia despida e simbólica evoca o rigor e o pendor experimentalista do Elinga. De igual modo, a precisão coreográfica das actrizes encontra eco no trabalho do grupo Henrique Artes, conhecido pela minúcia física e espacial dos seus elencos em dramas institucionais e psicológicos como “Hotel Komarca”. Contudo, onde o Henrique Artes tende a apostar num ritmo vertiginoso e num fôlego quase cinematográfico, o Enigma Teatro, nesta peça, prefere a suspensão poética e o misticismo do fumo e da penumbra.
Na verdade, se retirássemos o nome do encenador do programa e mostrássemos apenas determinadas imagens do espectáculo a alguém profundamente familiarizado com a história do Enigma Teatro, dificilmente essa pessoa deixaria de reconhecer uma linhagem estética comum. Mas reconhecer uma herança não significa assistir a uma repetição. O mérito de Nelson Cabanga talvez resida precisamente aí. Em vez de negar a tradição que o formou, escolheu dialogar com ela. Em vez de romper com uma gramática cénica consolidada ao longo de décadas, reorganizou os seus elementos para servir um texto, uma sensibilidade e um olhar próprios. A novidade parece residir menos na ruptura e mais na forma como os mesmos códigos são convocados para produzir novas leituras.
Nem tudo, contudo, foi irrepreensível. O início do espectáculo sofreu um atraso considerável relativamente ao horário anunciado, situação que gerou alguma expectativa e impaciência entre os presentes. Já em cena, a riqueza vocabular da escrita de Armando Rosa exigia uma articulação particularmente cuidada. Com excepção da actriz que interpretou Maria Desgraça, nem sempre a dicção permitiu que todas as subtilezas do texto fossem plenamente apreendidas pelo público por conta da deficiente articulação vocal das outras três actrizes. Em vários momentos, essa dificuldade foi agravada pelo volume elevado dos recursos sonoros, que por vezes se sobrepunham às falas.
Ainda assim, esses aspectos não foram suficientes para diminuir o impacto global da experiência. Talvez porque, naquela noite, o acontecimento ultrapassou os limites do palco. Houve aplausos para a direcção geral, encabeçada pela estreante Liliana Simão, para o elenco, para a equipa técnica e para a encenação. Mas houve também um reconhecimento colectivo dirigido a Armando Rosa, cuja presença foi celebrada como se celebra alguém que ajudou a construir uma parte importante da casa comum do teatro angolano.
Pouco depois, numa mensagem dirigida a Nelson Cabanga, o dramaturgo resumiria aquilo que muitos sentiram naquela sala: “Dr. Cabanga, obrigado. Uma soberba e muito criativa encenação. Um trabalho de responsabilidade. O Dr. honrou o meu nome. Durante o espectáculo, chorei de emoção.”
Nem sempre um espectáculo consegue emocionar o seu próprio autor. Nem sempre consegue reunir tantas gerações do teatro angolano sob o mesmo tecto. Nem sempre consegue lembrar-nos que, apesar das dificuldades que persistem, a Arte Rainha continua viva.
Quando as luzes se apagaram, as três Marias deixaram o palco, mas ficaram as perguntas, ficaram as feridas, ficaram as palavras e ficaram, sobretudo, os reencontros. Numa época em que tantas vezes se anuncia a crise das artes, a falta de união entre os Teatristas, a noite de “As Três Marias” lembrou que o teatro continua vivo. E quando o teatro se reúne para celebrar um dos seus, a arte deixa de ser apenas espectáculo. Torna-se memória.
Precisamos repensar Angola. É urgente!

